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Ted Bundy | Um Estranho ao Meu Lado – Ann Rule

Ted Bundy foi um serial killer que agiu em pelo menos seis estados dos Estados Unidos, matando por volta de 40 mulheres – do que se sabe – em declaração não oficial, Ted teria dito que “acrescente um dígito e você terá o número certo”. Ted sempre foi conhecido por ser o tipo de assassino em série que fugia do padrão, ele era inteligente, considerado bonito e charmoso, bem arrumado e sempre envolto de pessoas de “boa fé”.

Ted era homem com característiccas de camaleão: a aparência mudava drasticamente em quase todas as fotos que tirava, aparentemente sem nenhum esforço consciente de sua parte.

– página 189

Ted era o que eu chamo de lobo em pele de cordeiro.

Ele enganou muitas, muitas pessoas mesmo, uma delas sendo Ann Rule, autora de Um Estranho ao Meu Lado. Eles trabalharam juntos num centro de prevenção de suicídios e dali se tornaram amigos, ou melhor, colegas. An falou com Ted por meio de cartas até muito perto de sua execução. Pois é, um serial killer conversava por telefone com pessoas com ideação suicida e as fazia desistir de se matar, salvando algumas vidas.

Com frequência me senti agradeida por Ted não correr em minha direção (quando fugiu) […] Não estava com medo de Ted Bundy, mesmo que fosse o que diziam que era, assassino em série*, ainda não acreditava que me faria mal – mas também não podia ajudá-lo a fugir. Simplesmente não podia. […] Meu único temor em relação a Ted era ter que entregá-lo.

página 314-315

E é justamente por essa relação pessoal que essa biografia é tão interessante. Ann vai contar da história de Ted com uma visão pessoal, de alguém que realmente conviveu por um tempo com Theodore Bundy. Então, não espere aqui um relato impessoal, isso pode acabar te frustrando.

Ann escrevia artigos sobre crimes, ou seja ela trabalhava lado a lado com a polícia. Alguns dos seus amigos policiais, futuramente, trabalhariam no caso “Ted” e isso a colocaria entre a cruz e a espada pois ela estava próxima de ambos os lados. Seria Ted realmente o assassino tão procurado pela polícia? Ann conseguiu minha empatia durante essa leitura, porque a criticaram quando publicou a primeira edição desse livro lá no final da década de 70. Diziam que ela quis mostrar um Ted muito bonzinho, a questionavam se ela por acaso era apaixonada por ele, se eles tinham um caso. O machismo contra Ann me estressou durante a leitura. Imagine você, conviver por quase duas décadas com alguém que você considerava amigo, que sempre foi alguém bom com você, de repente surgem com um caso quase fraco contra ele, você se decidiria tão rapidamente por um lado? Por que eu tenho certeza de que eu ficaria como Ann, confusa e até assustada, até que acreditar na verdade era a única opção.

Timeline do Ted – veja aqui em melhor qualidade

Eu já conhecia um pouco do caso de Ted, mas com a leitura, passei a ter outra visão dessa caçada que durou muitos anos. Ted Bundy saiu de cidadão de bem, para alguém estranho e depois para suspeito e condenado pela polícia. Sempre conseguindo o seu, Ted se livrou de várias situações péssimas porque não se importava com o que encontravam que poderia ser minimamente incriminador, ele sempre tinha uma resposta e conseguiu escapar da polícia D U A S vezes puramente na lábia e uma mente que queria liberdade.

Ao que parecia, todos esperavam que Ted fosse fugir, mas ninguém tinha feito nada para impedir, e agora eles corriam em círculos para recapturá-lo.

página 289

Ted manipulava todos ao seu redor, sempre tinha uma opinião sobre o caso, se declarava inocente na maior cara dura e ele era muito bom em manipular mulheres. O que a autora também traz no livro.

[…] Encontrou um par de meias-calças no porta-luvas do fusca de Ted. Ele sorriu e não dera nenhuma importância àquilo.

– página 218

Com a leitura de Um Estranho ao Meu Lado pude perceber como o trabalho policial nesse caso foi feito mais por vingança do que pelas tantas vítimas. Ted era orgulhoso, falava mal dos policiais e se colocava em posição de superioridade a eles por se achar muito mais inteligente. Isso fez ele escapar de várias coisas, como falei, mas também conquistou o ódio da comunidade que o investigou.

[…] A foto dele estava na primeira página dos jornais em Seattle com tanta frequência que deveria ser fácil reconhecê-lo, mas ninguém nem sequer relanceou o olhar para ele durante as três horas que passamos juntos. Com todos os “avistamentos” do fantasma Ted, ninguém notou aquele Ted verdadeiro.

– página 229

Parecia que para Ted, seu caso com a polícia era um jogo e o melhor venceria e de início ele com certeza estava ganhando. Mas ele caiu na própria armadilha, ele diminuía o trabalho policial e subestimava tudo que era investigado. Ted caiu numa posição confortável e esse foi seu erro. Se tornou descuidado, minimamente, mas ficou descuidado. O fato de ter fugido duas vezes da polícia e agido com desacato contra as autoridades fez com que a polícia se tornasse mais ávida a prendê-lo e infelizmente, isso não tinha nada a ver com as mulheres que ele matou.

Ted era estudante de direito (formado em psicologia), sempre ambicioso e audacioso. O problema é que essa audácia o fez cair. Ted sabia que várias das provas contra ele eram circunstanciais tanto que para criar um caso contra ele, precisaram juntar uns 3/4 homicídios e juntar as peças feito um quebra cabeça mal elaborado. – e com uma equipe de defesa deliberadamente mal preparada pra um julgamento do tipo. É trágico escrever isso, mas eu tenho plena certeza de que, se Ted tivesse sido mais humilde e baixado a bola, ele teria sido inocentado e provavelmente nem teria existido um julgamento. Ele era um ótimo ator. Ted ao diminuir o trabalho dos seus próprios advogados de defesa o fez acabar se defendendo em tribunal criando inimigos poderosos dentro do sistema penal e se condenou.

O julgamento de Ted foi o primeiro de um assassino em série a ser televisionado. Ele gostava da atenção, ele gostava de saber que existiam pessoas – principalmente mulheres – o apoiando e sendo seduzidas por ele. Ele gostava de saber que conseguia enganar.

Ele foi sentenciado a três penas de morte (inédito na Flórida onde foi julgado), conseguiu enrolar quase uma década a data dizendo que confessaria, mas logo desistia, até que a promotoria cansou e uma data foi escolhida: 24 janeiro de 1989.

Vão matá-lo… e ele sabia disso o tempo todo.

página 451

Theodore Robert Bundy foi morto na cadeira elétrica aos 42 anos e os mitos que envolvem até sua morte, como um sobre uma mulher ter ligado essa cadeira são só isso, mito, assim como muito do que se fala de Bundy. E aqui fica mais um fato que deixa claro pra mim que pouco importavam as vítimas: depois da morte de Bundy, não tentaram encontrar os corpos das vítimas, não se tentou arrancar dele a verdade, elas simplesmente foram esquecidas, mas Ted até hoje é falado. Isso é extremamente sério.

Acreditava que o veredito fora correto, mas me perguntei se pelos motivos corretos. Tão rápido, tão vingativo. A justiça ainda era justiça quando se manifestava daquele modo em menos de sete horas de deliberação de júri? Será que era a forma de recuperar o atraso da justiça pelas mulheres mortas? Talvez não houvesse como fazer de modo mais limpo e conciso…

– página 453

Bundy morreu sem confessar e enterrou seus segredos junto com ele.

As mulheres sempre foram o conforto de Ted e a sua ruína. Visto que era capaz de controlar as mulheres, de nos equilibrar com cuidado no mundo muito bem estruturado que construíra, éramos importantes para ele. Parecíamos ter a solução para aquele lugar morto e vazio dentro de Ted e ele nos manipulava como marionetes, e, quando uma de nós não reagia da forma esperava, ficava, ao mesmo tempo, indignado e confuso.

página 465

Um estranho ao meu lado é uma leitura rica pra quem curte o gênero true crime, mas também deixa um sentimento de injustiça – sim, Ted foi morto – mas a verdadeira injustiça fica com as vítimas, com as famílias. Quem saiu ganhando foi a polícia que conseguiu condenar Ted Bundy. Até mesmo Theodore Robert Bundy saiu ganhando em algum nível, morreu sem confessar e com toda atenção sensacionalista do mundo.

Eu não sou culpado.

Qualquer um pode dizer o que quiser sobre Ted Bundy e as pessoas vão acreditar, contanto que se encaixe no mito popular.

Ted sobre ele mesmo em uma das últimas cartas a Ann. Página 526

Eu vou alegar inocente agora mesmo!

6 Comentários

  • Larissa Dutra

    Olá, tudo bem? Já ouvi falarem bastante nesse serial killer, mas nunca li nada dele, sei só o superficial mesmo. Não sabia desse livro, e confesso que fiquei bem curiosa para ler essa história, que parece ser muito interessante. Adorei a resenha e dica!!!

    Beijos,
    Duas Livreiras

  • Bianca Ribeiro

    Eu tô doida pra ler esse livro mas ainda não me sobrou dinheiro pra comprar ele (risos de nervoso).
    O filme eu gostei, só achei a linearidade dele meio complicada, o documentário da netflix é bem massa.
    Eu sempre gostei muito do ted, acho ele bem genial. Vira e mexe me pego pesquisando mais sobre ele e sobre a vida dele e cada vez eu acho mais coisas e mais escritos sobre ele, ele é muito fantástico! Adorei sua resenha e suas fotos ficaram perfeitas!

  • milca abreu

    eu to desesperada por esse livro!!!
    desde o lançamento eu ja coloquei no carrinho umas 115 vezes, mas nunca conclui a compra pensando nos outros livros que tenho aqui pra ler
    adorei sua resenha e essas citações eu ja copiei e colei aqui, amo ler sobre serial killers

  • Clayci Oliveira

    No período escolar tive que fazer um trabalho sobre ele, mas na época não tínhamos muitas informações. Fico me perguntando como mais fácil com todos esses materiais que estão surgindo sobre ele hahaha. Não sei porque só agora que a história dele está ganhando notoriedade aqui no Brasil. Vi o documentário no Netflix e fiquei chocada com as informações e curiosa para saber mais da vida pessoa – e de como está a filha dele, que é claro manteve o sigilo e mudou o nome.
    Essa edição da Darkside está linda *_*

  • Alice Lacerda Montiel

    Oiieee

    Uau, que resenha, esse traço biografico da autora, o fato de ela mesma ter tido uma experiência com o Ted muda a perspectiva da gente ao ler o livro, deve ser tremendamente interessante. Achei curioso esse detalhe de que sua investigação acabou sendo mais motivada pelo ódio que gerou o comportamente arrogante dele do que pelas vítimas em si, meio triste isso. Vou anotar a dica, achei uma leitura bem diferente do que leio e acho que pode ser legal conhecer mais,

    Beijos, Alice

    http://www.derepentenoultimolivro.com

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