Resenha | O Pior Dia de Todos – Daniela Kopsch

O massacre de Realengo aconteceu no dia 7 de Abril de 2011. Entre 8h e 8h30 da manhã, um homem (não vou citar o nome porque atiradores ganham muito biscoito) com um plano de vingança entra na escola Tasso da Silveira portando duas armas e munição suficiente pra matar mais de 100 pessoas. Ele invadiu as salas e começou a atirar principalmente nas meninas enquanto falava como elas eram impuras e ruins. Em 15 minutos de ação, ela assassinou 12 adolescentes. 10 eram meninas e 2 eram meninos. Além dos doze mortos, ficaram 22 feridos. O atirador, quando cercado pela polícia, tirou a própria vida.

Ana Carolina, Bianca, Gessica, Igor, Karine, Larissa, Laryssa, Luiza, Mariana, Milena, Rafael e Samira.

Vítimas fatais do Massacre.

Foi quase uma morte por minuto de ação.

Em 2011, eu tinha 13 anos. Cheguei em casa da escola com todos os jornais noticiando o massacre. Fiquei ligada. Presa naquelas notícias e entrevistas. E imagens.

Falei lá no Instagram que 3 casos brasileiros marcaram minha infância e adolescência: Isabella Oliveira, Eloá e o Massacre de Realengo. Na época do massacre eu não podia escutar um barulho na escola que me assustava. E até hoje, na faculdade, eu sou meio assustada. São histórias que marcam quem viveu a tragédia de perto e quem assistiu de longe.

No dia 7 de Abril de 2011, fui enviada a Realengo para conversar com as meninas da escola Tasso da Silveira, invadida por um homem que matou doze crianças. O que elas me contaram fundamentou os capítulos 53 a 61, onde procurei descrever os eventos do dia. O que aconteceu depois e o que aconteceu antes é, como todo romsnce, uma história coma intenção de nos socorrer da realidade. O dia 7 de Abril de 2011 foi realmente daquele jeito. Não há nada a fazer em relação a isso. É uma cena inevitável e definitiva, como uma fotografia no jornal.

Posfácio de O Pior Dia de Todos.

O Pior Dia de Todos é uma história de ficção que se passa antes/durante/depois do Massacre de Realengo.

O livro traz a história de Malu e Natália, duas primas que dividem toda a vida juntas na rotina simples. Desde ir pra escola até às crises que vem conforme crescemos. Ambas acabam indo estudar na Tasso da Silveira, as duas querendo alcançar vôos altos com os estudos.

Se no Brasil houvesse terremotos, talvez os pais nunca dissessem aos filhos: engole esse choro! Saberiam que desse jeito a mágoa se escaparia para o fundo do estômago, onde permaneceria em silêncio às escondidas.

Página 136

E engana-se quem acha que o livro vai girar em torno do Massacre. Sim, com certeza a tragédia é importante pra história, mas vai além disso. O Pior Dia de Todos conta sobre uma amizade que tem seus altos e baixos. Conta sobre crescer e perceber as desigualdades raciais e econômicas. Conta das dificuldades de criar uma vida melhor pra si, desde uma idade muito jovem. Conta sobre o que meninas precisam passar só por serem meninas.

É isso. Nossa infância tem data certa para acabar. A dos meninos, pelo jeito, pode durar pra sempre.

Página 74

Conta do primeiro amor, das brigas entre amigos, de vivências familiares, das surpresas boas e ruins da vida. Conta dos sonhos e pesadelos de duas garotas.

O livro é narrado pela Malu em capítulos curtos, ela sempre amou Natália e Natália sempre a amou. As suas são muito diferentes, mas extremamente unidas.

É uma grande mentira e, por isso mesmo, bastante convincente. Foi assim que a família Leão se tornou Realeza. O papai leão está sempre fora do castelo, em busca de caça. Tem que ter muito cuidado com ele porque, quando você se afasta do bando, ele ataca.

Página 189

O massacre aqui é de passagem, mesmo não sendo o foco, ainda é doloroso. Mas o pós, de quem ficou depois que doze vidas foram levadas naquele dia é a parte mais triste do livro. A autora trabalhou na cobertura da tragédia, então essa parte é baseada em fatos reais. O que só deixa tudo mais estranho. Por exemplo, Malu precisa lidar com suas redes de tv querendo fazer ela chorar na entrevista, e no posfácio do livro descobrimos que isso realmente aconteceu com uma das sobreviventes do Massacre.

O Pior Dia De Todos é um livro importante porque mostra realidades amargas, mas com partes doces. É a tristeza da não ficção com a liberdade de criar da ficção.

O que me motivou a escolher ficção é acreditar no fato de que a literatura nos oferece respostas que a realidade não é capaz de dar. Malu e Natália não existem, ao mesmo tempo são feitas de uma matéria muito verdadeira, de meninas que conhecemos, ou devíamos conhecer. Obrigada por terem lido essa história. Espero que não se esqueçam das meninas de Realengo.

É uma leitura rápida, mas que faz refletir sobre muitas coisas, que te dói e te alivia. Um livro sobre amizade em meio a tragédia.

Percebi que seguir em frente não é existe. Não existe um caminho por onde você pode dar um passo de cada vez, tornando-se mais feliz a cada dia. Nada disso. O que acontece é o seguinte: a cada passo adiante seguem-se dois ou três para trás. Você nunca sabe onde está.

Página 214

Ana Gabriela

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