Resenha | O Ceifador & A Nuvem – Neal Shusterman

❝Tem aqueles que buscam a fama para mudar o mundo e aqueles que a buscam para enganar o mundo.❞

Que burra eu fui por não ter lido esse livro MUITO tempo atrás.

O Ceifador é uma fantasia que vai trazer uma realidade bem diferente. No universo criado pelo Neal, as pessoas se tornaram imortais. Tudo o que nos fazia facilmente passíveis a morte (doença, violência, fome…) foram extintas. Tudo é controlado pela Nimbo-Cumulo, uma espécie de inteligência superior que organiza o Planeta pra que não falte nada para a vivência das pessoas. Elas podem ser revividas, trocar suas aparências, enfim, bem utópico. A única coisa que a Nimbo não pode controlar pela sua falta de consciência é a morte. Sim, porque algumas pessoas ainda precisam morrer pelo bem do controle populacional. Isso ainda está nas mãos dos seres humanos, por causa da nossa compaixão, digamos. Esses seres humanos são escolhidos a dedo e são chamados Ceifadores. Existem 10 mandamentos:

  1. Matarás
  2. Matarás sem discriminação, fanatismo ou pensamento premeditado
  3. Concederás um ano de imunidade aos entes queridos daqueles que o receberem e a todos que considerar digno
  4. Matarás os entes queridos daqueles que resistirem
  5. Servirás a humanidade durante todos os dias da sua vida, e tua família receberá imunidade como recompensa enquanto viveres
  6. Levarás uma vida exemplar em palavras e atos, e registrarás todos os dias da tua vida em diário
  7. Não matarás nenhum Ceifador além de ti
  8. Não reclamarás nenhuma posse material além de teus mantos, teu anel e diário
  9. Não terás cônjuge nem filhos
  10. Não seguirás nenhuma lei além dessas.

As motivações podem ser facilmente transformadas em armas.

Os Ceifadores são seres humanos comuns, tipo eu e você, mas possuem treinamentos em diversos métodos de mortes e são autorizados a matarem, e possuem uma cota (pra ninguém matar mais do que deve). Bem estranho né? Eles são mal vistos pela maioria das pessoas, por motivos óbvios, já que eles convivem na comunidade como qualquer outra pessoa. Vivem de um modo diferente, por causa das leis que devem seguir, mas são humanos.

Seremos apresentados ao Ceifador Faraday, que chega um dia na escola de Rowan Damisch para coletar (já que eles não usam a palavra matar, porque não é por prazer que o fazem, e sim por dever) um aluno da escola. Rowan acometido por empatia decide ficar ali enquanto o trabalho é feito. Isso chama atenção de Faraday. Em outro momento, somos apresentados também a Cintra Terranova numa situação bem curiosa, quando Faraday faz uma visita a sua casa. Imagina, um Ceifador chega na sua porta, você entra em pânico. Não é exatamente isso que acontece com Cintra.

E é por esses comportamentos que Faraday os escolhe para serem seus aprendizes. Exatamente, um deles, ao fim do treinamento, vai virar Ceifador.

Os seres humanos aprendem com seus erros tanto quanto aprendem com suas boas ações.

E é assim que começa uma história EXTREMAMENTE CATIVANTE. Eu não sou muito chegada a fantasias, tenho muita dificuldade de iniciá-las, mas esse livro me capturou de um jeito impressionante. Toda a construção desse novo modo de viver me chamou muita atenção, o modo como as pessoas vivem com essa imortalidade, com o fato de terem os Ceifadores, tudo isso. É incrível. Eu me senti completamente imersa no mundo que Neal Shusterman desenvolveu nesse livro e vi suas críticas claras ao modo como nós vivemos hoje em sociedade, e como achamos que seria se existisse a possibilidade de chegarmos ao ponto em que a Terra chegou em O Ceifador.

A esperança diante do medo é a motivação mais forte do mundo.

A narrativa é feita na terceira pessoa e temos um recurso interessante, que são trechos dos diários que os Ceifadores precisam manter durante sua “carreira” que dá uma visão das suas ideologias dentro do que fazem, e do que acontecia no passado. Personagens que ganharam muito destaque pra mim – além dos já citados – foram a Ceifadora Curie, Ceifador Goddard. Eles são basicamente opostos no que acreditam e isso foi muito interessante ao longo da história. O livro tem ação, tem sangue, tem um conceito de genocídio jogado pra baixo do tapete (considerando que são Ceifadores né). É uma história densa, mas muito fluida de ler. Precisei de dois dias pra terminar, isso porque segurei o quanto pude minha curiosidade de descobrir o que aconteceria, porque MUITA coisa acontece. A história tem reviravoltas na trajetória de Cintra e Rowan que me pegaram de surpresa, e I DID NOT SEE THOSE COMING.

O autor amarra bem pontos soltos que foram deixados abertos nesse primeiro livro, mas ainda sim, consegue deixar espaço para a narrativa continuar nos próximos volumes, e agora, se você ainda não leu o primeiro volume, por favor, saia dessa resenha porque eu vou falar do segundo livro A Nuvem e podem conter spoilers!

Aqueles que seguram as tochas são os que lançam as maiores sombras.

página 52

O livro começa quase um ano depois dos acontecimentos de O Ceifador. Citra é agora a Honorável Ceifadora Anastassia e ela honra o seu título, seguindo princípios que muitos Ceifadores perderam ao longo do caminho. Rowan se transformou num fugitivo da Ceifa, o temido “Ceifador” Lucifer, que tem coletado os Ceifadores corruptos que nem a Ceifa e muito menos a Nimbo-Cúmulo pode deter.⠀

Inclusive, a Nimbo-Cúmulo é um personagem muito mais presente neste volume, porque, ao invés dos diários dos Ceifadores nos inícios do capítulos, temos as reflexões que a Nimbo-Cúmulo traz sobre a sociedade que ela sustenta e como ela enxerga o mundo dos Ceifadores. É muito interessante esse ponto de vista, principalmente pelo fato de a Nimbo não ser exatamente alguém, ela é algo.

Lamentar que o céu esteja prestes a cair não o impede de fazê-lo.

p. 342

Nesse volume eu senti menos coisas acontecendo. Temos uma ameaça contra a vida de Anastassia e Curie, vemos muito pouco o ponto de vista do Rowan (achei bem triste rs) e temos um novo personagem “principal”, Greysson Tolliver que é muito chegado a Nimbo, mas acaba em um problemão que altera muito a vida dele. Então o temos na narrativa.⠀

Enquanto a liberdade dá margem ao crescimento e ao esclarecimento, a permissividade faz o mal florescer à luz de um dia que em outros contextos não permitiria seu surgimento.

p. 177

O livro ainda tem umas reviravoltas bem interessantes e em determinado momento eu tive uma surpresa BEM grande e BEM complicada pra história, diga-se de passagem. Senti que ele ficou um tantinho parado, e as coisas começaram a acontecer de verdade da metade do livro pra frente e o final ficou um pouquinho corrido.⠀

Se formos julgados pelos nossos maiores arrependimentos, nenhum ser humano será merecedor nem de varrer o chão.

p. 332

Em A Nuvem, vemos como a utopia criada tem defeitos e começa a falhar. Apesar dos pontos que me incomodaram um tico, ainda continuo achando essa história incrível e recomendo que vocês leiam os dois volumes pra conhecer o que Neal Shusterman criou!

Ps: um detalhe interessante e agonizante: o livro termina em um cliffhanger. Ainda tem mais um livro, já que é uma trilogia e eu vou começar a ler.

Mas se houvesse uma verdade no que dissera, talvez ele não entrevisse a mentira.

p. 152

Ana Gabriela

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo