Resenha | Lady Killers – Tori Telfer

[…] As prisões de Raya e Sakina […] colidiram com a ansiedade relacionada à erosão dos valores morais do Egito, especialmente quando se tratava da mudança do papel das mulheres. Elas começavam a frequentar espaços tradicionalmente masculinos, como mercados, bares e cafés – e o fato de que elas estavam sendo assassinadas era, para algumas pessoas, exatamente o que mereciam. A imprensa culpou as vítimas por suas próprias mortes, dizendo que se não estivessem por aí tão descaradamente e/ou se prostituindo, elas nunca teriam encontrados as mortais irmãs.

página 109


Lady Killers foi uma leitura que me aguçou em vários níveis. Primeiramente porque aqui o protagonismo é absolutamente feminino, temos várias assassinas em série. Segundo porque em cada caso vemos que até sendo assassinas as mulheres são inferiorizados ou demonizadas excessivamente.

[…] As pessoas se esforçam para ligar assassinas em série à luxúria […] Devido ao ‘mito da passividade feminina’, uma mulher que não internaliza sua raiva é muitas vezes vista não apenas como masculinizada, mas como, quase literalmente, um homem. ⠀

página 17

Em vários do casos, vemos como essas mulheres eram masculinizadas por serem cruéis e assassinas. Já que segundo a mente patriarcal, as mulheres são doces e submissas. Também vemos que alguns dos crimes por elas cometidos não chegam nem a ser tão terríveis se comparados a assassinOs em série, mas por serem mulheres, elas foram excessivamente vilanizadas e até suas penas eram muito pesadas e super sexualizadas.⠀

Não havia nada sobre Lizzie que encantasse o público, nenhum detalhe atraente para conectá-las às pessoas da mesma forma como elas se apegavam aos assassinos mais bonitos […] Ela não era apenas não feminina, mas também não humana.

página 79

Essa super sexualização também condenava ou aliviava as penas dessas mulheres. Se eram belas e bem afeiçoadas, poderiam até, ser inocentadas, já que ficava aquela imagem de boa moça do lar que não mata nem mosca. Mas se eram “feias” e grosseiras, rapidamente o júri acreditava nos crimes por elas cometidos.

A autora também levanta hipóteses da motivação dessas mulheres de matar, muitas delas queriam se livrar de maridos abusivos, infâncias de estupros e falta de estrutura no geral. No livro, é perceptível ver a diferença do método de morte das mulheres em relação a homens. Em sua maioria, teremos envenenadoras, mortes extremamente lentas e excruciantes, mas silenciosas e sem muito sangue. Uma ou outra gostava de espancamentos.⠀

O caso das irmãs Raya e Salina me deixou de estômago embrulhado tanto pelos crimes que elas cometeram, quanto pela sociedade egípcia que na época de seus assassinatos culpou as vítimas (na sua maioria mulheres) por conta da liberdade que estava sendo dada já que estavam havendo mudanças no papel das mulheres ali. Culpabilizavam as vítimas pelo modo que viviam, pelas vestimentas e pela LIBERDADE delas. Te parece familiar? Esse caso é de 1920…

[…] Não quero fazer com que assassinas em série pareçam as feministas supremas. Não quero fazer parte da longa tradição que glamuriza os assassinos em série […] mas acredito no poder curativo e esclarecedor da narração, e penso que há algo de proveitoso em olhar para o mal, em tentar compreendê-lo, imaginando se talvez somos todos um pouco responsáveis. Poderia qualquer coisa humana ser estranha a nós?

página 296

O livro discute de uma forma direta a masculinidade tóxica que envolvem essas mulheres assassinas trazendo reflexões sem glamourizar as próprias. Porque muitas delas foram esquecidas no caminhar histórico, sendo que cometeram crimes (verdadeiramente) mais cruéis do que Jack, o estripador por exemplo? Sendo que eram mais contemporâneas que ele? Qual a razão de algumas serem inocentadas pelas suas características físicas enquanto outras eram ditas “masculinas” cometendo crimes semelhantes?⠀

São muitos questionamentos, Lady Killers foi uma leitura bem enriquecedora. Senti falta de casos mais recentes, já que o foco aqui acaba sendo em mulheres assassinas historicamente esquecidas, mas no final do livro a autora explica o porquê de não ter trago as mais atuais.⠀

As assassinas em série da atualidade certamente são dignas de estudo, mas há um peso e uma tristeza nos crimes modernos que a história tende a apagar.

página 293

Mesmo assim, na edição Brasileira temos ao final, nomes femininos mais recentes de uma forma mais essa, já que os estudos mais aprofundados ainda não foram feitos.

Recomendo demais o livro!

Ana Gabriela

2 comentários em “Resenha | Lady Killers – Tori Telfer

  1. eu já tinha visto a capa desse livro mas não tinha lido nenhuma resenha
    foi muito esclarecedora ,não imaginava que se trata de um retrato real se mulheres assassinas
    dica anotada e parabens pela resenha e pelo seu questionamento acerca de varias questões

  2. ainda não tinha visto resenha desse livro e gostei dos seus questionamentos acerca dos acontecimentos retratados no livro
    não sabia ao certo do que se tratava esse livro e depois de ler sua resenha fiquei com vontade de ler
    parabens pela resenha

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