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Resenha | Confissões do Crematório

Confissões do Crematório é o livro de Caitlin Doughty, uma agente funerária que conta as suas primeiras experiências no trabalho. Ela, com seus 23 anos entrando em um universo onde a morte é o foco. Interessante não? O livro em si já chama a atenção pelatemática. Uma jovem narrando suas experiências com a morte. A MORTE. Um assunto tão complicado de ser falado pela nossa vontade de viver pra sempre, pelo nosso medo de um dia morrer. Mas a morte vem pra todos um dia. E é isso que Caitlin quer mostrar. Que não é algo a ser temido, é só algo que você deve aceitar que vai chegar e continuar vivendo sua vida normalmente até lá.  

Nossa identificação humana com os mortos sempre nos faz ter a impressão de que o falecido deve estar sentindo dor, embora o vazio nos olhos do homem me dissesse que ele tinha abandonado a propriedade proverbial há muito tempo.

Página 31
Confissões do Crematório
Confissões do Crematório

A sua primeira experiência de morte veio quando ela tinha apenas oito anos. Estava em um shopping e viu uma menininha caindo de uma escada rolante, de uma altura muito grande – valeu aí, eu nem tinha medo das tais escadas rolantes, agora então… – Como é óbvio, seus pais levaram ela no outro dia, depois de uma noite mal dormida da pequena Cait, para comer panquecas e nunca mais falaram do “incidente”. Isso a marcou mais do que podia-se imaginar, tanto que ela escreveu um livro sobre a verdade em relação a morte. Coisas que você não ouve as pessoas conversando numa roda de amigos. “E aí, como você quer seu caixão?”  

    Aquele baque, o barulho do corpo da garota batendo no laminado, se repetiria na minha mente sem parar, um baque surdo atrás do outro.

Pagina 44
Confissões do Crematório
Confissões do Crematório

“O mais surpreendente nessa história [da sua primeira experiência com a morte] não é uma garota de 8 anos ter testemunhado uma morte, mas o fato de ela ter demorado oito anos inteiros pra isso.” – p . 45

A escrita da Caitlin é bem fluída, ela tem um certo humor – que traz do seu canal no Youtube – faz com que se alivie a leitura, mas sem deixar de falar duras realidades como o cheiro da decomposição de um corpo ou um suicida que os pais contrataram o serviço de cremação por telefone para não ter que encarar a situação de fato. Muitas coisas na leitura me incomodaram – no sentido de que me fizeram refletir. Outras foram surpreendentes e outras eu sabia inconscientemente. E isso porque eu também nunca havia parado pra pensar que essas determinadas coisas aconteciam de verdade.  

A mãe estava morrendo e a filha sabia. Recusar-se falar sobre o assunto e chamar a morte de inesperada não é uma desculpa aceitável.

Página 119

Confissões do Crematório é obviamente uma não ficção, mas é fácil se deixar levar pela leitura. Algumas coisas que ela fala são tão estranhas que realmente parecem inventadas, mas é só porque a gente não busca saber mais sobre a morte. Recomendo a leitura para quem planeja morrer – como está na capa do livro – e sim, todos vamos. Então por que não?  

Confissões do Crematório

“Mesmo que passemos o dia encontrando jeitos criativos de negar nossa mortalidade, por mais poderosos, amados e especiais que nos sintamos, sabemos que estamos fadados à morte e à decomposição. Esse é um peso mental compartilhado por poucas e preciosas espécies na terra.” – p. 70

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