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A má interpretação no ataque de Columbine – Dave Cullen

O ataque de Columbine foi um tiroteio escolar, é difícil alguém não saber o que foi Columbine porque apesar de não ser o maior, é o tiroteio escolar mais comentado. Sempre que um novo acontece, tentam fazer ligações com o ataque de Eric e Dylan em 20 de Abril de 1999 (lembram do mais recente em São Paulo esse ano?).

As equipes da SWAT fizeram buscas pelo prédio durante mais de três horas, mas os assassinos jaziam mortos o tempo inteiro: suicidaram-se na biblioteca às 12h08, 49 minutos depois do início do ataque. A chacina e o terror tinham sido reais, os reféns, não.

Página 94

Eric e Dylan eram estudantes da Escola Secundária de Columbine. Eric era mais charmoso, apesar de mãos baixo, era inteligente, tirava boas notas, mas tinha muita raiva dentro de si que escondia com seus recursos psicopatas. Dylan era um jovem depressivo, suicida, alto demais, inteligente, mas que não se interessava por absolutamente nada e também tinha ataques de raiva, mas eles eram picos, de resto, ele era quase um morto vivo. Eric era controlador e Dylan era submisso. Um queria o caos e o outro queria morrer.

Uma junção perigosa que causou Columbine.

Muito do que se sabe de Columbine lendo o livro de Dave Cullen descobrir que é falácia ou falta de interpretação dos fatos por não conhecê-los. Muita gente acredita até hoje no mito que Eric e Dylan foram um dos primeiros heróis dos jovens que sofrem bullying dentro de escolas. Pois eu vim contar uma novidade pra você: Columbine não foi um massacre vindo de garotos que sofriam bullying, foi cometido por bullies.

Na quinta feira, os estudantes no Clement Park estavam irritados. Os assassinos estavam mortos, portanto grande parte da raiva foi defletida: para os góticos, Marilyn Manson, a MDS ou qualquer um que se parecia, se vestia ou água como os assassinos – ou que tivesse a descrição feita pela imprensa. (…) Era verdade, góticos tinham matado antes – assim como membros de todas as origens e subculturas concebíveis.

Página 162

A desinformação e a falta de inteligência midiática e da polícia nos primeiros minutos e horas do ataque criaram os inúmeros mitos de Columbine. Eles iam desde os atiradores (quantidade, motivação…) até de quem professou ou não sua fé antes de levar um tiro fatal. Sim, a história mais conhecida da primeira garota morta que assumiu seu amor por Cristo antes de ser assassinada é errada, quem fez isso foi Val, que sobreviveu e foi chamada de mentirosa por várias pessoas.

“A ajuda está vindo.”
Aaron acreditava nisso. A força policial recebeu o primeiro aviso do estado de Dave [Sanders] por volta das 11h45. Os operadores da central respondiam que a ajuda estava “a caminho” e chegaria “em uns dez minutos”. As promessas foram repetidas por mais de três horas, junto de ordens para que ninguém saísse da sala sob nenhuma circunstância.

Página 149

Sobre a polícia, se tivessem sido menos covardes (usando palavras pesadas porque sim), teriam entrado na escola antes e salvado a vida de Dave Sanders, professor de Columbine que sangrou até a morte em uma sala de ciências, já que as equipes da SWAT não agiram como prometeram para os alunos que estavam com Dave. Se a polícia tivesse sido mais inteligente, teria entendido que Eric e Dylan pararam e se mataram mais ou menos 45 minutos depois de iniciarem o “Dia do juízo final” em Columbine e não teriam esperado desesperadoras 3 horas para finalmente entrar na escola e resgatar tantos alunos e profissionais que se escondiam pensando que morreriam naquele dia enquanto os corpos de Eric e Dylan já entravam em decomposição.

Além de não entregarem o corpo de Danny, não o levaram para dentro, pois ainda jazia lá fora, na calçada. Muitas bombas, disseram as autoridades – o corpo poderia conter armadilhas (…) Brian (pai de Danny) não conseguia acreditar que tratassem o corpo de uma vítima daquela maneira tão indiferente. Então nevou. O corpo de Danny permaneceu na calçada por 24 horas.

Página 113

Acho que durante a leitura foram esses pontos que me indignaram e o pior é que a falta de tato da Mídia e Polícia que existem até hoje.

Em notória coletiva de imprensa dez dias após os homicídios, os oficiais de Jeffco omitiram a declaração, e com bastante audácia mentiram sobre que sabiam.

Página 173

Columbine de Dave Cullen é um trabalho rico de pesquisa de quase uma década. A sua primeira edição foi lançada nos Estados Unidos 9 anos após o ataque. O livro esclarece os mitos envolvendo o ataque e os atiradores, mostra que não foi puro impulso. Eric planejou majoritariamente o ataque com pouco apoio de Dylanque só usaria Columbine como desculpa para morrer, isso mudou mais perto da data em que tudo aconteceu quando suas ideações suicidas se tornaram homicidas por grande influência, claro, de Ericpor um ano inteiro. Aprendeu a montar bombas turbo, conseguiu o arsenal gigantesco que não foi todo utilizado. A ideia de Eric era um show grandioso para a mídia, bombas explodiram na área comunal de almoço dos alunos matando ali centenas, depois ambos ficariam em pontos específicos da escola atirando nos sobreviventes tentando fugir de dentro da escola. Felizmente, as bombas falharam e restou o plano B que foi de simplesmente atirar a esmo, aleatoriamente em quem aparecesse na frente. Eric atirou mais em comparação a Dylan.

Para ele [Eric], Columbine era um espetáculo, arte homicida. Chegou a se referir ao público no diário: “A maioria nem sequer vai entender meus motivos”, reclamou. Roteirizou Columbine como assassinato para a TV, e a preocupação principal era que seríamos burros demais para entender o propósito. O medo era a derradeira arma de Eric, que queria maximizar o terror; não queria que os jovens temessem eventos isolados, como disputa esportiva ou o baile; queria que temessem o cotidiano. Deu certo: pais em todo país tinham medo de mandar os filhos para a escola.

Página 277

O livro não vem só pra falar de Eric e Dylan (e tem um capítulo inteiro sobre as mídias pararem de dar espaço para atiradores), claro que nesse caso é necessário falar deles, mas a parte mais interessante é que Dave foi atrás dos sobreviventes desde a primeira hora depois do início do ataque. Ele conta as histórias de alguns sobreviventes mais conhecidos, Patrick Ireland – o garoto que se atirou da janela lutando pela própria sobrevivência -, Val – a garota que realmente falou sobre crer em Deus – e de outros que não receberam tanta atenção assim. Vemos sobre os pais dos Treze (que morreram) e como eles lidaram com seus lutos, o que fizeram com suas perdas e como seguiram em frente. Ou tentaram.

Jeffco divulgou o relatório em 15 de maio de 2000, como ordenado. O foco do pacote era a linha do tempo, minuto a minuto, do dia 20 de Abril de 1999, com muitos detalhes e ilustração de maneira dramática a rapidez com que tudo aconteceu: apenas sete minutos e meio na biblioteca, todos os mortos e feridos nós primeiros dezesseis minutos.

Página 299

E claro, também vemos sobre os pais dos atiradores. Wayne e Kathy – os pais de Eric – se tornaram mais retraídos ainda, não falam com a imprensa até hoje, falaram pouco com os pais dos Treze (existem relatos disso livro) e lidam como podem com Columbine. Sue e Thomas – pais de Dylan – são mais vocais, sempre foram. Sue principalmente, mandava cartas para os pais dos Treze, tentou e teve encontros com quase todos e hoje faz palestras sobre saúde mental, ela fala sobre a sua e a de jovens suicidas. Tem um Ted Talk muito interessante, o link tá aqui. Cullen mostra o lado dos pais dos atiradores pra sabermos que apesar de seus filhos terem feito algo horrível, eles ainda sim eram pais e ainda sim eram humanos tentando entender o que aconteceu enquanto eram culpados por tudo.

“Nós corremos para salvar as nossas vidas”, disse Sue mais tarde. “Não sabíamos o que tinha acontecido, não podíamos chorar a perda de nosso filho (…) O casal conversou com um advogado aquela noite, que compartilhou com os Klebold um pensamento preocupante. “Dylan não está mais aqui pra ser odiado”, disse. “Então as pessoas vão odiar vocês.”

Página 101

Columbine é uma leitura intensa, mostra falhas grotescas da polícia, do sistema e da investigação sobre Eric e Dylan (antes e depois do ataque, diga-se de passagem); e claro por trazer tudo de uma forma tão direta e profunda sobre tudo o que aconteceu. Imagino como foi difícil pra Dave se despedir do processo de escrita de Columbine. No prólogo ele comenta um pouco da vivência dele depois de todos esses anos, e você se emociona com os relatos de trauma, choro, ansiedade e depressão que irromperam dele ao longo do tempo. Fazer a leitura já foi difícil, imagina escrever, mergulhar de cabeça em uma tragédia que – querendo ou não – ditou uma série de questões para os futuros tiroteios escolares – porque tivemos e infelizmente, ainda teremos mais. Enquanto não houver um trabalho sério e atento, atiradores escolares e de massa vão existir. Tive muita empatia por Dave e entendi ainda mais o seu modo de escrever e relatar Columbine. Seu modo de enxergar o que aconteceu foi sincero, verdadeiro e fugiu de todo sensacionalismo que foi noticiado na época e até hoje é anunciado erroneamente aos 4 ventos.

Dois dos maiores mitos são que os atiradores eram solitários e que “surtaram”: surpreendentes 93% planejaram os ataques com antecedência. “O caminho na direção da violência é evolucionário, com placas de sinalização ao longo da estrada”, dizia o relatório do FBI.
Influências culturais também parecem fracas: apenas um quarto tinha interesse em filmes violentos, metade desse número em videogames – provavelmente abaixo da média para adolescentes.

Pagina 320

O livro não anda exatamente numa linha cronológica, temos certa organização, mas não espere ler começo – meio – fim porque nem a investigação foi dessa forma, quem dirá o livro que relata tudo isso.

Mataram dez, feriram doze, os 34 remanescentes eram vítimas fáceis, mas se entediaram. Saíram da sala sete minutos e meio depois, às 11h36, dezessete minutos depois do início do ataque. Além de si mesmos e policiais, não voltariam a atirar em outro ser humano.

Página 348

Um relato cru, mas sensível sobre as 13 vítimas mortas, sobre os atiradores – sem romantizá-los, o que é extremamente importante -, sobre os pais dos atiradores que sofreram por seus filhos serem assassinos, por serem culpados e por terem perdido seus filhos e principalmente sobre os sobreviventes. A parte dos sobreviventes é fantástica.

Ser feliz e bem-sucedido é a melhor maneira de mandá-los se ferrar. Queriam que eu morresse, mas estou viva, e vocês mortos, posso ser feliz.

Val na página 369

Acho que o que mais deixaria Eric frustrado é o fato que as vítimas sobreviventes de Columbine resistiram, sobreviveram e ainda estão de pé mesmo depois de todo seu planejamento. Ele odiava todas as pessoas por serem “inferiores” a ele, queria que sofressem e morressem. Essa resiliência também seria fruto de frustração para Dylan, que se veria fracassando em mais uma coisa na vida.

(…) Os estudantes já tinham perdido tanta coisa, que entregar um centímetro de corredor ou uma única sala pareceria derrota, queriam a escola de volta – toda ela! O Sr. D (diretor) e o corpo docente estavam focados nós jovens: colocá-los em terapia e ficar atentos aos sintomas de trauma.

Página 253

Essa é a provavelmente a maior vitória de todas os sobreviventes, eles estão vivos e resistiram ao plano de Eric e Dylan de causar dor e caos.

Entrevistei valentões e li incontáveis relatos escolares de seus tormentos, e nada nos registros de Eric e Dylan chega perto. No fim das contas, apenas uma perspectiva importa: a deles. E deixaram claro: eram perpetradores do assédio mais do que receptores (…) Jeffco poderia ter erradicado o mito do bullying ao simplesmente liberar o diário dos assassinos, e mitos de dinfundiriam ao longo de sete anos enquanto Jeffco os redinha, mas os diários revelariam. Eric documentaram as queixas de maneira exaustiva e valentões nunca foram mencionados. (…) Existe outro mito pernicioso: que Eric e Dylan foram bem-sucedidos. A levar seus próprios padrões em consideração, Columbine foi um fracasso colossal. Tão irreconhecível como terrorismo que os classificamos em primeiro lugar dentre os atiradores escolares que ridicularizavam. Saída que deixaria Eric puto da vida, porque imaginou o esplendor de glória, descreveu alegremente um policial o balear na cabeça, mas não (…) Assassinos continuam tentando reviver a glória e o júbilo de Columbine, mas não houve nada disso. A narrativa é duplamente falsa.

Página 385

Peço desculpas se essa resenha parece meio desordenada, mas é que eu simplesmente não consigo organizar meus pensamentos em relação a leitura. Ela foi muito importante e reflexiva pra mim.

7 Comentários

  • Clayci Oliveira

    Não peça desculpas porque eu gostei da forma que fez essa resenha.
    Estou de olho nessa edição e pretendo dar uma chance para essa leitura futuramente. Acompanhei o caso, claro, através das grandes mídias e concordo plenamente com a falta de preparo de todos os envolvidos.

  • Silviane Casemiro

    Quero MUITO ler este livro
    Gosto demais desse tipo de literatura e acho essencial o assunto Columbine pois, como voce mesma disse, é uma influencia para outros casos assim, o mais conhecido.
    Não conheço a fundo o caso, mas acredito em tantos problemas sociais que envolvam esses meninos, té ter chego as vias de fato, que é possivel fazer um puta de um estudo em cima disso.
    Enfim, a resenha ficou maravilhosa.

    Silviane, blog Memento MoriParticipe do Top Comentarista de Outubro

  • Angela Cunha Gabriel(O Vazio na flor)

    Este é um lançamento dos mais desejados! Não apenas por ser baseado nestes dolorosos fatos, mas sim por muita coisa ter ficado meio escondida nestes anos todos.
    Como as decisões foram tomadas, como tudo acabou de certo modo acontecendo.
    Quando um livro pega a gente na paulada, é assim mesmo, as palavras se misturam!
    O que importa é que livros assim sirvam como aprendizado, mas também como um afago a tantas famílias que passaram não somente por esta tragédia, mas tantas outras!!!
    Beijo

  • LÍVIA SANMARA TORRES SOARES

    Um livro que realmente precisava ser publicado, este é Columbine,as pessoas precisam entender o que realmente aconteceu…e como as coisas ficaram
    depois..as famílias que sofreram e ainda sofrem com isso dia após dia…

    Temos que falar sobre isso…

  • PS Amo Leitura

    UAU! Acho que é a primeira vez que leio a resenha deste livro e já fui impactada desse jeito! Gostei de todos os questionamentos e todas as abordagens que você trouxe. Curto leituras assim, intensas. Não sei se é o momento certo para mim ler esse livro, mas a dica vai ficar mais do que anotada!

    Beijos,

  • Erika Monteiro

    Oi Ana, tudo bem? Não conhecia o livro mas acredito ser uma leitura bem intensa. Ataque às escolas, bullying com os alunos, são situações que sinceramente não deveriam existir numa escola. Quando era adolescente lembro de alguns coleguinhas fazerem piada por uma coisa ou outra mas nunca nada sério. Hoje é quase impossível ter o mesmo relacionamento sem as pessoas pensarem que é um ataque ou passar pela cabeça entrar num colégio e atirar em todos os alunos. Um trabalho bem complicado descobrir o que realmente aconteceu. Um abraço, Érika =^.^=

    • Ana Gabriela

      Mas o caso em Columbine não foi questão de bullying… Foi de psicopatia mesmo, e é isso que o livro e minha resenha tentaram passar. Reduzir Columbine a bullying ou “atirar em pessoas” em razão de bullying é simplificar algo que não pode ser simples.

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