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Resenha | Cidade das Garotas – Elizabeth Gilbert

Quando iniciei a leitura de Cidade das Garotas, dei belas risadas com algumas das primeiras frases de Vivian. Senti uma vibe de Os Sete Maridos de Evelyn Hugo e pensei que as chances de eu não gostar desse livro eram baixas.

E ainda bem que eu estava certa.

Talvez eu não fosse uma aluna tão terrível assim, no final das contas. Talvez estivesse apenas triste.

Só estou percebendo essa possibilidade neste instante, ao escrever.

Minha nossa.

Às vezes levamos muito tempo para entender as coisas.

Página 19

Vivian Morris é uma jovem rica de dezenove anos, sua vida foi traçada pelos seus pais que são influentes na cidade onde mora. O problema é que Vivian acaba expulsa da faculdade e a única solução que os pais vêem e enviá-la para Nova York para ficar com Peg.

Peg não é a tia que ninguém espera. Dona do teatro Lily Playhouse, ela dirige peças de teatro um tanto medíocres para uma classe baixa. Lembrando que a história se passa na Nova York dos anos 40. Uma ambientação incrível, diga-se de passagem.

A certa altura da vida de uma mulher, ela se cansa de sentir vergonha o tempo inteiro.

Então está livre para se tornar quem é de verdade.

Página 339

Vivian começa a finalmente viver… não do jeito tradicional e muito menos recatado. A garota tem o dom da costura que aprendeu arduamente com a avó que tanto amava, então passa a ser a figurinista das peças de Peg. Vivian descobre uma vida cheia de cor, bebida, pessoas diferentes e descobre o Showbiz.

É notícia, e eu sou jornalista. Se é verdadeiro ou é interessante, não tenho alternativa a não ser publicar.

Página 244

Tanto seu lado bom quanto o ruim.

Cidade das Garotas é um livro que tem um ambientação maravilhosa e trágica. Porque na metade do livro nos encontramos na segunda guerra mundial. E é um momento histórico bem presente no livro, mas sem ser o personagem principal.

É também no meio do livro que a história que até então tinha um ritmo aturável se torna ágil e melodramática.

Quando antes for pisoteada, mais cedo vai poder começar a reconstruir sua vida.

Página 256

Vivian acaba cometendo um erro que para a época destruiria vidas de mulheres, na verdade, até hoje destrói. E quero deixar claro que é só a mulher que sai “manchada”. Não posso contar o que é, só digo que nessa parte da história a personagem que mais tinha me conquistado além de Peg me deixa decepcionada. Ouso dizer que apenas dois homens nessa história valem a pena ser lembrados

[…] Todo mundo lamenta. É bom lamentar, mas não faça disso um talismã.

Página 293

Mas é também nessa parte da história que Vivian tem um crescimento visível no enredo e ah, que coisa maravilhosa acompanhar ela se descobrindo e se aceitando! O livro é narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Vivian, óbvio. Só que ele começa “no presente” quando Vivian recebe notícias de Angela, dizendo que sua mãe faleceu e que gostaria de saber qual era a natureza da relação de Vivian e seu pai.

O campo da honra é dolorido […] Foi o que meu pai me ensinou quando eu era nova. Ele me ensinou que o campo da honra não é um lugar onde as crianças podem brincar. Crianças não têm honra, e não se espera isso delas, porque é difícil demais. É doído demais. Mas para virar adulta, a pessoa tem que entrar no campo da honra. Agora tudo será esperado de você. Você vai ter que ser vigilante com seus princípios. Terá que fazer sacrifícios. Será julgada. Se cometer erros, terá que se responsabilizar por eles. Vai ter vezes em que você vai ter que deixar de lado seus impulsos e assumir uma posição à que outra pessoa, uma pessoa sem honra, talvez assuma. Talvez você se magoe com essas situações, e é por isso que a honra é um campo dolorido.

Página 363 – que pensamento doloroso e real

Não descobrimos quem é o pai de Angela até às últimas páginas do livro, mas sério, vale muito a pena fazer essa jornada. A narrativa das aventuras do passado de Vivian são para dar contexto e explicar para Angela quem era o pai dela para si. E é uma baita história.

“Estou decepcionada com todo mundo.”
“Com quem exatamente?”
“Os adultos. Todos eles. Como foi que deixaram o mundo sair do controle desta forma?”

Página 303

Como falei lá no início, quando comecei a ler senti que encontrava uma história muito gostosa de se ler. Uma protagonista que me lembrava Evelyn Hugo, com muito para contar. E da mesma forma que me surpreendi com aquele livro me surpreendi com esse. Pode parecer que vai ser mais uma história sobre teatros decadentes ou atores e atrizes, mas é um livro sobre uma mulher que se compreende e que não tem vergonha de si. Um livro que começou me fazendo rir, mas nos últimos capítulos me emocionou e me fez refletir.

Minha dica é, se você for ler Cidade das Garotas saiba que seu início é mais lento e parece que o plot principal vai ser deixado de lado para contar as desventuras sem sentido de uma garota em Nova York, mas acredite é muito mais que isso. Continue lendo e conheça Vivian, ame Vivian. Ame Cidade das Garotas!

Quando jovens, podemos nos tornar vítimas do mito de que o tempo cura todas as feridas e que uma hora tudo acaba se resolvendo. Mas, à medida que envelhecemos, aprendemos a triste verdade: certas coisas jamais podem ser consertadas. Certos erros jamais podem ser remediados, nem pela passagem do tempo nem pelos nossos desejos mais fervorosos. Na minha experiência, essa é a lição mais dura de todas. Após certa idade, estamos todos passeando por este mundo em corpos feitos de segredos, vergonha, tristeza e feridas antigas não curadas. Nossos corações ficam inflamados e disformes em torno de toda essa dor — porém, sabe-se lá como, seguimos em frente. 

Página 308

Você achou que eu ia perder a oportunidade de colocar uma referência a This is It do Michael aqui???

Essa resenha também foi postada anteriormente no Roendo Livros.

4 Comentários

  • Marijleite

    Oi, acho que essa é a primeira vez que vejo esse livro e me pareceu muito interessante pelo seu post a forma como ele começa nos divertindo e passa a nos emocionar. Gostei muito das citações que selecionou e certamente farei essa leitura para conhecer a Vivian.

  • Michelle

    Oiii, tudo bem? O livro me parece maravilhoso, eu amo histórias do tipo e com mulheres fortes envolvidas fico mais atraída pela leitura. Gostei de saber sobre a obra e pelo título não conseguimos identificar suas considerações de ser uma obra divertida e ao mesmo tempo reflexiva, adorei a resenha.

  • Tammy (Livreando)

    Olá!
    Amo essa ambientação dos anos 40 e só por isso a obra já me chama a atenção. Fora que tem também o fator histórico em volta da histórias. Ou seja, me encantei com a proposta do livro. Já anotei aqui para da er mais.
    Bjim!

  • Erika Monteiro

    Oi, tudo bem? É muito bom quando um livro nos surpreende de forma positiva. Não conhecia o livro mas gostei bastante da edição. Tenho curiosidade em ler os títulos dessa editora. Semana passada descobri eles são responsáveis pela edição do livro Um homem chamado Ove que foi adaptado para o cinema. Muito curiosa para comprá-lo. Gostei da protagonista crescer a amadurecer ao longo da história isso faz com que nos identifiquemos. Já salvei na minha listinha. Um abraço, Érika =^.^=

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