Quando o relógio badalou as doze batidas…

É um fenômeno interessante ver pessoas colocando tanta expectativa e metas sobre um número. Como se a virada do dia 31 de dezembro para o 1° de janeiro fosse diferente de todas as outras mudanças de 23h59 pra 00h. A única coisa que difere é a sua expectativa em relação a essa virada.

A verdade é que as pessoas não mudam com as badaladas do relógio. Nem com a mudança de um número do ano ou sequer a “virada” de uma década. Até no conto da Cinderela quando a meia noite chega, ela volta a suas roupas velhas, sem nenhuma magia, sem nenhuma mudança real, é só sua antiga vida. Esse tinha sido o acordo. O conto de fadas acaba tão rápido quanto a batida que o iniciou.

Cinderela volta a ser a escrava pessoal de sua madrasta e meia irmãs até que o Príncipe inicia sua procura pela dona do sapatinho de cristal perdido.

Qual é o seu sapatinho de cristal?

Cá entre nós, eu tenho absoluta certeza de que ninguém vai vir atrás de mim perguntando se eu sou dona do tal sapato. Não fique esperando o príncipe porque muito dificilmente ele virá. Também não espere que a madrasta e as irmãs tenham se transformados em pessoas boas e compreensivas que querem o seu bem porque elas estão aguardando você começar a limpar o chão. Não ache que você vai conseguir entrar no castelo sem seu vestido azul, cabelo em um lindo coque e carruagem porque eles não querem você, querem a ilusão da fada madrinha que te encaixa no que eles tanto desejam.

A única coisa que você e eu podemos fazer é ter metas realistas, não digo que é proibido sonhar  porque no conto da Cinderela mesmo presa no sótão ela insistiu até que o príncipe a visse. Então insista. Mesmo sabendo que a sua persistência e resiliência são maiores do que qualquer tentativa má, muitas madrastas vão tentar prender seu potencial para a grandeza. Sonhe, mas tenha em vista o que pode ser alcançado por você naquele momento. Tudo que Cinderela podia fazer era ficar na janela esperando ser reconhecida.

2019 foi um ano em que fiquei presa em muitos sotãos, a magia da fada madrinha mal conseguia chegar a meia noite e nenhum príncipe trouxe de volta meu sapato perdido. Quando o relógio bateu o horário não quis ir, queria ficar e viver, aproveitar, mas eu não podia, então saí correndo. Mentiram sobre a minha existência e até a ignoraram. Meu coração ficou triste vendo as irmãs tentarem e até serem reconhecidas por algo que era meu. E quando chegou o 2020 minha cabeça doía tanto que não consegui fingir que esperava algo diferente.

Eu ainda estou na janela. Não tenho a magia da fada madrinha e as chaves do castelo estão muito distantes de mim. Nesses cinco dias de 2020 nada diferente do que eu estou acostumada aconteceu. Nenhuma grande surpresa, nenhum “príncipe” e nenhuma mágica.

Eu ainda continuo na janela porque é o que eu posso fazer. Não voltei para pegar o sapato porque talvez ele precise ficar ali, é a prova de eu já estive no baile e pertenço àquele lugar. 2019 apenas me mostrou que eu sou muito mais forte do que eu imaginava ser. E é com isso que eu sigo pra 2020. Nenhuma solução fantasiosa, nenhuma expectativa irreal, apenas eu.

Talvez você tenha esperado um texto com uma grande reviravolta, onde eu era encontrada, ia para o castelo e vivia feliz para sempre. Talvez você achou que esse seria um texto sobre manter-se positivo(a) apesar de tudo estar ruindo sobre sua cabeça. Não, não é. É apenas uma carta minha pra você que talvez não tenha tido um bom 2019 e viu tantos textos lindos sobre. É uma carta de alguém que tá contando com Deus e com ela mesma pra que 2020 seja minimamente melhor e que não seja feito de aprendizados cheios de tombos ao longo do ano. Se seu 2019 foi ruim, espero de coração que 2020 seja melhor. Se seu 2019 foi bom, espero de coração que 2020 seja melhor ainda.


ps: quando eu falo de príncipe não é só sobre relacionamentos amorosos, mas pela ideia de resgate/ajuda.

“Esse ano deveria ser ótimo!” Menos expectativa te faz menos Ross rs

Ana Gabriela

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