As perdas que partilhamos

(…) vamos nos comprometer a perguntar aos outros, “Você está bem?” Por mais que possamos discordar, por mais distantes fisicamente que estejamos, a verdade é que estamos mais conectados do que nunca por causa de tudo o que suportamos individual e coletivamente este ano.

Texto de Meghan para o The New York Times

Em 25 de Novembro, Meghan Markle por meio de um artigo de opinião no The New York Times compartilhou ter sofrido um aborto espontâneo em Julho desse ano. Nele, ela também fala sobre outras perdas que 2020 trouxe. Você pode ler o artigo traduzido aqui.

Essa é a minha versão.


2020 foi um ano estranho. Nós perdemos muito como sociedade. Foram queimadas destruindo acres e acres de vegetação necessária para a sobrevivência do planeta; a morte de pessoas pretas só por serem pretas; pessoas sem um pingo de humanidade nas maiores posições de poder, tomando decisões sobre vidas de quem elas nem consideram gente; desacreditando a ciência, mentiras sendo repetidas e ecoadas como verdades e tudo isso, no meio de uma pandemia. Um vírus que não tem preferidos, que pega quem for e às vezes nem se mostra até que seja tarde demais.

Problemas antigos foram destacados por um problema novo.

Também tivemos nossas perdas pessoais. Alguns perderam membros da família ou amigos, bebês que não tiveram a oportunidade de nascer, outros perderam empregos, alguns não puderam ter suas celebrações de aniversário, casamento, pessoas cancelaram viagens há muito planejadas.

No meio disso tudo, eu acreditava que as minhas perdas foram insignificantes. Algumas pessoas que eu amo e me apoiam, foram embora, não pela morte, mas por estarem vivas e alçando voos maiores e mais altos. E elas merecem. Doeu e ainda dói um pouquinho. Perdi lealdade, companheirismo, espaços, suporte. Perdi segurança. Perdi quem investia em mim, me ensinava, me confrontando em amor e paciência. Esse ano eu aprendi muito sobre solidão, sobre como ela pode ser gerada por quem a gente nem imagina. Aprendi muito sobre quem eu sou, sobre com quem eu posso contar quando meu lado da corda fica mais fraco. Aprendi sobre a solitude que me fez companhia nesse ano. Percebi que papel higiênico não foi a única coisa que faltou esse ano e que empatia foi coisa rara.

Aprendi que você não precisa nem estar no mesmo continente que alguém para essa pessoa estar do seu lado. Nem vê-la sempre. Compreendi mais ainda que palavras são vazias se não vem acompanhadas de atitudes. Descobri que eu sou mais forte do que imaginava e que talvez, como diria uma amiga minha “a Meghan me olha e me aplaude“. Aprendi que Deus tem se alegrado comigo.

De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos.

2 Coríntios 4:8-9

2020 me mostrou que dá para ser sozinha cercada de pessoas. Não que isso fosse novidade, mas eu senti mais. Mas eu também senti o amor de quem se disponibilizou a me ouvir, de quem decidiu sentar comigo e pelo menos tentar me compreender. De quem fez questão. De quem me convidou.

2020 me mostrou que minha voz é mais forte do que imaginava e que às vezes, o incomodo que ela causa é muito necessário. E não pense que isso me fez sentir melhor, na verdade, isso me custou. 2020 me fez entender que eu sou facilmente substituível e não é fácil de engolir.

Se devo me orgulhar, prefiro que seja das coisas que mostram como sou fraco.

2 Coríntios 11:30

Muita gente perdeu muito em 2020. E nenhuma dessas perdas foram insignificantes, como eu imaginava, serem as minhas. Todas elas doem no particular, e só entende isso quem conseguiu praticar o músculo da empatia nesse ano assustador. E essa empatia deve ir além de nós mesmos, além de quem está sempre do nosso lado, além de quem acredita no mesmo que eu, além de quem tem a mesma cor de pele que eu, além de quem ama do mesmo jeito que o meu.

Quantas vezes esse ano, onde estamos em isolamento, você perguntou para alguém se eles estavam bem, com o intuito de realmente parar e ouvir? E os “sumidos”, você se lembrou deles?

As curas das perdas que esse ano causaram vão ser iniciadas quando nós praticarmos a empatia, perguntarmos “tudo bem?” e isso realmente significar algo dentro de cada um de nós. 

Estamos nos ajustando a uma nova normalidade em que os rostos são ocultados por máscaras, mas isso nos força a olhar nos olhos uns dos outros – às vezes cheios de calor, outras vezes de lágrimas. Pela primeira vez, em muito tempo, como seres humanos, estamos realmente nos vendo.

Estamos bem?

Nós ficaremos.

Tradução MMBR

Em sociedade, sofremos dessa ilusão ou realidade de que alguns problemas ficam tão grandes que ninguém quer se envolver.

Ana Gabriela

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