A construção do mal em Why Women Kill

A televisão tem uma habilidade incrível para te fazer justificar o injustificável. Tanto que séries onde assassinos em série são os personagens principais são todas um estouro. Alguns estudos já mostraram que isso tem muito a ver com a nossa necessidade de afastar o mal de nós, seres humanos que nunca fariam algo do tipo. Colocar essa ideia de que só personagens fictícios matam e fazem coisas horríveis de um jeito cinematográfico faz com que o telespectador pense que nem ele e nem ninguém perto dele seria capaz de algo tão horrível. Ou então, nos apegamos a ideia de que “personagem X faz isso, mas é completamente justificável por Y”. Eu sei porque eu já falei isso sobre o Dexter, por exemplo.

Por que nós dizemos que uma pessoa que mata/faz mal a outras é louca? A “loucura” desumaniza e assim, podemos dormir tranquilos a noite, estamos distantes disso…

A primeira temporada de Why Women Kill traz justificativas. Essas mulheres, em décadas diferentes, cometem crimes por um motivo. Os episódios explicam ao telespectador a razão para cada uma daquelas mortes e no final, nós sentimos alívio, junto com as protagonistas.

A segunda temporada de Why Women Kill não faz isso, bem longe.

Existe um plot na história que dá essa impressão, mas até ele é pervertido ao longo dos outros 9 episódios. Alma (Alluison Tolman) sonha em entrar no Clube de Jardinagem, onde só existem mulheres ricas e esnobes, mas uma oportunidade abre e ela vai tentar. Muito. 

Ainda morta? Que pena. (c)

É interessante ver o caminho que Alma percorre, logo de início, quem assiste entende que ela é uma mulher muito boa, “recatada e do lar” com nenhuma auto estima. Ela nunca é lembrada pelo nome, quando sabem quem ela é, é por ser “a esposa do veterinário amado da comunidade”. Alma é uma mulher boa, gentil. Sempre satisfeita com as migalhas que lhe foram oferecidas ao longo da vida. Até não se satisfazer mais. Apesar de ter um casamento feliz, uma família unida, ela ainda se sente vazia, rejeitada e o Clube de Jardinagem parece trazer todas as respostas que ela deseja. Alma quer se tornar como Rita. Uma mulher confiante, mas que não é tão boa assim. Rita (Lana Parrilla) é casada com um ricaço grosseiro e velho que ela achava que ia morrer pouco tempo depois do casamento, 10 anos depois e ele continua vivo e ela não aguenta mais. Ela faz a vida de todo mundo um inferno porque a dela sempre foi um inferno.

Eu sempre digo que a chave do sucesso é planejar com antecedência.

A história da segunda temporada mostra que o mal pode estar do seu lado, e até em você. Uma motivação distorcida e pronto… A gente acredita que fazer o mal é só tirar uma vida, mas nem sempre. O mal começa muito sutil, com manipulações, humilhação, omissões, pequenas mentiras que de repente, colocam a pessoa em um caminho sem volta. 

A maldade é construída. Nem Ted Bundy simplesmente acordou um dia e decidiu matar. Foram anos e anos de manipulações, distorções, fantasias e aí chega um momento que a fantasia não foi mais suficiente pra satisfazer, vem a “oportunidade” de ter o poder que nunca teve. Infelizmente, isso tinha a ver com mortes extremamente violentas. Em Why Women Kill a linha narrativa é essa. A satisfação de um desejo, de obter algo, é mais importante e quem tá no caminho é um obstáculo a ser removido.

Em Why Women Kill nós vemos de forma clara o crescimento da maldade em alguém que você jamais imaginaria. O típico oprimido que tem a oportunidade de ser opressor e nem se dá conta disso. E quando percebe que é exatamente essa narrativa que está seguindo, já não se importa mais. O que importa é ser reconhecida. Mesmo que seja pelo mal, o poder é mais chamativo que a bondade já há muito esquecida.

Por isso, eu achei a segunda temporada de Why Women Kill perfeita. A primeira me rendeu mais justificativas pro injustificável, no final, eu tava ali, juntinha daquelas mulheres. Nessa?

Longe disso, tanto que eu resolvi escrever um textão sobre como a linha narrativa me fez pensar. Me arrependi de ter demorado a dar uma chance pra essa temporada. O trabalho narrativo é sensacional, a atuação é incrível e me deu a oportunidade de rever Lana Parrilla (saudades Rainha Má). Se você ainda não viu, por favor, faça esse favor. Tá disponível na Globo Play 🙂

Eu amo um bom assassinato. (c)

Nós precisamos saber que o mal se constrói e que temos que ter cuidado com ele.

Ana Gabriela

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